O outro lado do viral – “É fulano né teu nome?”

Uma entrevista sobre as consequências do cyberbullying


30
10 ações, 30 pontos

Se você é ligado no mundo dos memes há alguns anos, provavelmente já topou com o vídeo de uma garota loira extremamente simpática dando dicas de como iniciar uma conversa.

Gravado em torno de 2010,  o vídeo só viralizou anos depois, em torno de 2014, e não se sabe qual foi a primeira página a repostá-lo.

O material, postado originalmente no Formspring*, foi gravado como vídeo-resposta de como ela queria que tivessem agido com ela na escola. Ou seja, tinha o intuito de exemplificar abordagens num encontro. Nele, a entrevistada falava como gostaria de ser tratada na época em que era mais introspectiva e reservada e não tinha amigos fora da internet.

Mas como um vídeo aparentemente inocente pode afetar tão negativamente a vida de alguém? Como o cyberbullying pode chegar ao nível de envolver ameaças?

Numa entrevista exclusiva para o MemeAwards, a mulher por trás desse vídeo nos contou sobre sua história, sobre essa viralização e suas consequências. Ela preferiu não ter sua identidade revelada. Confira:

Entrevista

MEMEAWARDS: Como era sua relação com as redes sociais antes desse vídeo? Você passava muito tempo online?

ENTREVISTADA: Eu uso a internet desde que eu tinha 8 anos (e mentia que tinha 10). Eu tava lá quando tinha o Zip Chat, Dragon Games, fóruns de Harry Potter e vários outros chats que não existem mais – nunca usando meu nome real, nem idade, nem foto. Tinham muitos fóruns… Eu estava em todos eles.

Eu não tinha amigos na vida real, e a internet foi meu lugar de fazer amigos. Só amigos virtuais até ter uns 14 anos, e mesmo depois os que fiz na vida real eu conheci online. Pessoas mais outcast*, que nem eu, que gostavam de anime, de jogo… E falavam de um jeito diferente do que o pessoal do colégio, que eu nunca me identifiquei. Na escola, os tipos de bullying eram variados, nenhum muito forte, era aquela coisa do tipo rir da cara, cochichar, achar estranha… Não sei o que achavam estranho mas achavam.

Então eu tava online o tempo todo. À medida que a internet foi agregando novas pessoas e ficando mais parecida com a vida real, as pessoas começaram a postar fotos, se mostrar mais, e eu me adaptei a isso.

MA: Sua relação com as redes mudou depois que o vídeo viralizou?

E: Quando o vídeo viralizou, eu fechei as redes, e eu nunca tinha deixado elas fechadas, então pra mim, é um ato político e pessoal.  Eu acredito que a internet é meu lugar, então assim como na vida real que tu pode chegar e conversar com uma pessoa, assim eu imaginava que era a internet. Hoje em dia eu acho que vejo que você deve sim manter sua privacidade. Ainda sim é uma coisa estranha pra mim, eu não gosto de manter privada, tanto que quando abaixou um pouco isso do vídeo eu abri de novo minhas redes, mas nunca foi como era antes.

MA: Você sabe como ele viralizou?

E: Foi em 2015 ou 2014. Eu acordei de madrugada com muitas ligações, eram trotes, e mensagens de garotos desconhecidos. Algumas eram só “oi eu sou o fulano”, outras eram mais ofensivas. Não entendi nada, eu nem lembrava do vídeo. Depois, comecei a receber mensagens de amigos, que me explicaram que eu tinha viralizado. Alguns amigos Youtubers me aconselharam a aproveitar isso e tentar criar um canal, mas eu nunca quis isso. Minha reação foi um “Meu Deus do céu… Socorro!” Aí, algumas amigas me mostraram em fóruns as postagens sobre o vídeo e tal. O que eu imagino é que algum incel guardou esse vídeo e postou anos depois. Eles acham as coisas de gurias da internet, e vão compartilhando nesses fóruns até viralizar. 

MA: Qual o primeiro episódio que te deixou desconfortável em relação ao vídeo?Como a repercussão do vídeo te afetou na “vida real”?

E: O primeiro dia que eu li as postagens em fóruns eu já vi as diversas ofensas misóginas, fotos da minha casa pelo Maps, além de ameaças… Meus amigos se perguntavam por que que o vídeo teria viralizado, mas eu entendo o que chamou a atenção. Eu sei como é a cabeça de um incelzinho*. O que eles viram foi uma “guria bonitinha falando uns negocinhos fofos” em um vídeo e isso lembrou eles de muitas rejeições que provavelmente sentem diariamente. Eu sei porque já me senti assim quando era excluída, quando mais nova, e porque muitos dos meus amigos da época têm muitas semelhanças com esses “incels” que me atacaram. Mas eu não entendia o que significava misoginia quando era mais nova. Teve momentos recentes em que o vídeo afetou minha vida fora da internet. Por exemplo, teve um episódio dentro da minha casa, que o namorado de uma amiga, depois de uma festa, super bêbado, começou a falar: “E aquele teu vídeo, ein… Nunca entendi a graça, não é nem divertido.” Eu nem sabia que ele sabia do vídeo. Ele falou super debochando de mim, e ninguém gosta de ouvir algo assim dentro da própria casa. Muito recentemente, também aconteceu outro episódio chato que impactou minha vida pessoal. Eu descobri que um dos meninos que expôs informações minhas em fóruns é um dos meus primos mais próximos.

Fiquei desapontada, mas não surpresa. Ele sempre demonstrou comportamentos de incel, eu que evitava ver. Ele inventou coisas sobre mim na internet, falou que eu tinha problemas psiquiátricos, entre outras coisas. Minha vida inteira eu fui a pessoa que fazia companhia pra ele, jogava videogame junto, prestei socorro pra ele quando ele próprio foi o que apresentou problemas psiquiátricos, perdoei ele depois de ele ser super indiscreto comigo em várias ocasiões. Era melhor amiga dele, apresentei meus amigos pra ele. Eu perguntei pra ele se ele sabia do vídeo, porque tinha certeza de que ele frequentava fóruns, a gente “cresceu no mesmo meio”. E ele me deu essa facada nas costas.

MA: Qual foi o impacto que isso teve na sua vida? 

E:  Uma coisa que sempre me deixa magoada é ver como é fácil viralizar algo que você não quer, mas quando você quer que algo viralize, não acontece. Tu, Melzinho, trabalhou comigo na divulgação do *Necrópolis e viu como é difícil fazer uma pessoa assistir um produto que foi pensado e criado pra ser consumido e divulgado. Agora, uma bobagem… Um negócio que não vai te retornar em nada, que usam teu rosto e tua voz e tu não ganha nada (muito menos dinheiro) com isso, que é só pra te ridicularizar… Esse viraliza. Embora as ameaças não tenham se efetivado e ninguém nunca me seguiu na rua, já me reconheceram em uma rave – “Te conheço de algum lugar, tu não é a guria do Oi Fulano?”, e eu fiquei bem assustada. O maior impacto na minha vida é que eu tive que deixar de ser a pessoa que eu mostrei ser no vídeo. 

MA: Você sentiu necessidade de tomar alguma providência legal? Como foi?

E: Eu nunca tive muita esperança de que algo fosse dar certo. Vários amigos que são advogados me ajudaram durante esse tempo todo, e, em 2019, uma pessoa muito próxima minha pagou um advogado pra me ajudar. Eu não quis custear porque não acreditava que fosse funcionar e não queria me desgastar. Então, eu e meus amigos coletamos os vídeos na internet para que entrassem nesse processo e fossem tirados do ar. Mas de que adianta? O vídeo é viral, qualquer pessoa pode postar novamente. O pior é que a reprodução livre de conteúdo foi algo que eu defendi a minha vida toda, e com isso eu descobri que a internet não deveria ser tão livre assim. As providências legais não resolveram nada, o vídeo segue ressurgindo, sem nenhum cuidado comigo. A não ser quando aconteceu com a *South America Memes, que foi a única que me ajudou ativamente, e quando apareceu no Bunka Pop também removeram prontamente. 

MA: Como você cuida da sua saúde mental em relação a isso?

E: É claro que me incomodo de ler ofensas misóginas, principalmente desse primo, dando minhas informações minhas por aí, enquanto mentia na minha cara que não sabia de nada. Eu sei que a opinião das pessoas sobre mim não muda quem eu sou, e também tenho noção de que não sou a única que passa por isso. Mas quando afeta a minha vida off-line, como quando o namorado da minha amiga me ridicularizou dentro de casa, é difícil de só esquecer. Sobre os incels em geral, não tem o que fazer. Eu achava que esse tipo de rejeição poderia ser resolvido com a empatia, que foi o que falei sobre no vídeo, mas claramente o buraco é muito mais embaixo. O pior é quando algum amigo me diz: “Ah, pra que tu foi fazer o vídeo? Pra que tu foi falar sobre isso? Ah, mas tu tinha pensado melhor antes de fazer”… Ah, por favor. Todo mundo se filma e se expõe o tempo todo na internet. Por isso, em questão de saúde mental, o que mais me deixa triste é quando a gente tem que lidar com alguém próximo, que deveria te apoiar, mas resolve só julgar.

MA: Você já gostou de algum meme feito do vídeo? Ou todo meme feito é desconfortável?

E: Eu não vejo os vídeos, as vezes as pessoas me mandam e eu nem clico nos vídeos, só envio pra algum amigo guardar pra mim. Eu não vi nenhum meme, a não ser um. Era um de rave, como eu gosto de rave e é meu mundo, eu achei engraçado e isso foi uma das formas de eu me reconectar com essa história e levar o vídeo na brincadeira, que é um meus objetivos em relação a saúde mental.

MA: E o que você acha que poderia ter sido feito pra te ajudar nessa situação?

E: Eu gostaria que isso tivesse sido feito antes, que alguém tivesse me estendido a mão pra dar meu direito de resposta, pras pessoas é muito fácil dizer pra eu ficar quieta que isso logo vai ser esquecido. Enquanto isso, a minha cara tá por aí sendo viralizada, sendo feita de pateta, o vídeo sempre foi circulado me ridicularizando e eu sinto que nada mudou desde a época do colégio. Sou a estranha, a esquisita, e as pessoas comentam disso.

MA: Você teve apoio de alguém nesse momento?

E: Todos os meus amigos de verdade me ajudaram, sempre me mandando os links, pra eu colocar no processo. Alguns amigos ajudaram com coisas judiciais, e eu agradeço principalmente o meu amigo que contratou um advogado pra mim. Além desses, tu mesma, o Félix (South America Memes), e alguns “bons samaritanos virtuais” desconhecidos me ajudaram reportando reposts do vídeo. 

MA: Qual conselho você daria para alguém que passa por essa situação?

E: É muito estranho ver sua própria imagem sendo reproduzida sem sua permissão, mas, uma vez que acontecer, tente se empoderar da sua própria história. Se isso aconteceu com você, tenha certeza de que não é só com você. Um monte de gente passa por isso, principalmente meninas. E saiba que, provavelmente, só se esconder não vai mudar nada em relação à reprodução desse conteúdo. Siga sua vida e saiba que isso não muda quem você é, nem o seu valor, por mais que possa se sentir diminuída ou ridicularizada. Se você não souber ainda o que significa “*incel”, pesquisa sobre para saber com o que você tá lidando. E, por fim, saiba que você não é obrigada a virar uma pessoa pública por causa disso – a não ser que queira.

MA: Tem algo a mais que você gostaria de falar? Algum recado…

E: Gostaria de frisar como é louco como o mundo no qual eu cresci se voltou contra mim. Eu era parte daquele “submundo”, e agora eu tenho que ver esses mesmos caras com quem eu muito já interagi virtualmente falando que eu sou o tipo de pessoa que quer “enganar” eles, ou que sou uma porcaria sem valor, coisas do tipo. É muito esquisito. Eu era uma usuária de fórum, nunca fui popular, não era bonita, era o patinho feio. E é muito louco pensar que eu tinha os amigos errados. 

Imagem: Instituto de Crescimento Infantojuvenil

Vocabulário:

*Formspring: antiga rede social de perguntas e respostas. 

*Outcast: pessoa rejeitada.

*Incel: celibato involuntário, grupo que concentra homens misóginos.

*Necrópolis: seriado nacional onde a entrevistada foi roteirista.

*South America Memes (SAM): página de memes onde também foi postado o vídeo (após a entrevistada entrar em contato, foi retirado do ar imediatamente).


Como é? Compartilhe com seus amigos!

30
10 ações, 30 pontos