Por trás do meme – “Arr%mbaran nembmmeymymu qyaeti”

Uma entrevista sobre a reação da internet a pedidos de socorro


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Se você é ativo no Twitter, provavelmente já viu alguma referência ou até mesmo esteve presente quando esse tweet foi publicado:

Arr%mbaran nembmmeym (@Arr_mbaran) | Twitter

Anos atrás, na época em que se o Twitter ficasse instável você teria a visão de uma baleiazinha sendo carregado por pássaros, Natalhando, na época com 22 anos, era uma personalidade bem famosa da rede social, chamando atenção pelo seu humor e tweets irreverentes. 

No entanto, a consequência de uma grande fama, além de fãs, são os haters. Além deles, há um grande público com a crença de conhecer alguém baseado apenas em seus tweets.

Natália conta que nessa época, fora do meio digital, tinha diversos episódios depressivos e oscilações de humor, além de uso abusivo de bebidas alcoólicas misturadas com remédios ansiolíticos.

Alterada pelo uso desses medicamentos e das bebidas, em meio a uma crise, como uma forma de pedido de socorro, ela tentou se matar. Enviou algumas mensagens a amigos e um deles conseguiu avisar às autoridades, que felizmente, chegaram a tempo de impedir.

Natália conta que após os bombeiros arrombarem sua porta, ainda alterada, postou aquele Tweet, e diz que só publicou porque era totalmente viciada na rede social. Ela nunca imaginou a repercussão que isso teria em sua vida – a ponto de, anos depois, ainda ser afetada com essa história. 

Após levar alta do hospital, ela teve que lidar com a repercussão gigantesca da sua tentativa de suicídio ter viralizado, pessoas duvidando, memes, milhares de Retweets…  

Sem saber lidar com a situação, em um momento de desespero, Natália pensou que a melhor saída seria se passar pelo próprio pai, e postou que estava em coma. Com essa atitude, ela queria que entendessem a gravidade e parassem com os ataques em um momento tão delicado.

Mesmo assim, porém, acabou tendo transtornos ainda maiores: teve seu Whatsapp divulgado, sendo impedida até de falar com os próprios amigos devido às inúmeras mensagens de ódio.

Com o tempo, Natália tentou seguir em frente e voltar ao Twitter, mas não conseguiu lidar com tamanho ódio usando uma situação tão delicada e desistiu. Também precisou largar o emprego devido à mania de perseguição.

Além de todo evento traumatizante, o meme se espalhou de forma que até hoje é reproduzido em algumas partes, muitas vezes por gente que nem sequer sabe o contexto, ou acredita que toda a história foi uma invenção para “chamar a atenção”. (E mesmo se fosse, ainda sim seria sinal de problemas psicológicos.)

O bullying teve um impacto gigantesco na vida de Natália, a ponto de ela largar o perfil, que era seu refúgio. 

Para ler na íntegra o relato de Natália, clique aqui. 

É essencial repensar os memes que são compartilhados, para evitar que mais “Natálias” passem por isso. Afinal, nem tudo pode ser motivo de piada.

Confira abaixo a entrevista exclusiva que o MemeAwards fez com ela:

Entrevista com Natalhando (@natalhandoreal)

MEMEAWARDS: Obrigada por conversar com a gente, Natália! O que você acredita que poderia ter evitado esses ataques?

NATALHANDO: Acho que se existisse a militância que temos hoje talvez as coisas não tivessem sido tão cruéis. As pessoas cometeram injúrias raciais e outras coisas pesadas e não tinha ninguém que estivesse ali para responder aquilo. Eu até cheguei a ir na delegacia, mas o desgaste era tão grande… ter que printar  cada coisa, depois explicar pro policial, depois falar de novo e de novo, ficar revivendo aquilo. Cada mensagem era um gatilho, imagina ter que ficar com a cópia das mensagens que pra você são gatilhos terríveis e ter que ficar revivendo aquilo… Quando é só você e não tem nenhum apoio é muito difícil levar as coisas adiante.

MA: Qual conselho você daria para alguém nessa situação?

N: O primeiro seria realmente sair da internet, parar de olhar aquilo. A gente que tem o costume de ficar numa rede social  muito tempo tendo contato com ataques tem uma dificuldade enorme pra parar de olhar, mas é preciso. E procurar um psicólogo também é essencial. Se afastar e procurar ajuda QUALIFICADA. Sei que é muito difícil se abrir com alguém porque existe a culpa e a vergonha, mas se tiver um amigo de confiança peça a ajuda dele também. 

MA: Qual o maior impacto que isso teve nessa sua vida?

N: Bom, eu ganhava dinheiro com o Twitter, na época eu tinha 64.000 seguidores e pra aquela época (2013) isso era muito. Então posso dizer que tive, sim, um prejuízo financeiro, mas o pior com certeza foi o psicológico. Foram anos pra “consertar”, pra deixar de me sentir culpada, pra sair do fundo do poço daquela depressão, a vontade de sumir e a sensação de que a sua vida acabou. Não tem dinheiro que pague.

MA: Como mudou sua relação com as redes sociais após isso? 

N: Bom, Twitter, nunca mais. Até criei uma conta há uns anos atrás só pra “não ficar de fora”, mas depois me afastei de novo. Twitter é realmente a terra de ninguém. Sempre vejo as pessoas falando do quanto essa rede é tóxica. Agora só uso o Instagram.

MA: Você recebeu apoio durante esses ataques?

N: Recebi de algumas pessoas, mas a grande maioria ou me humilhou, ou se calou. Eu já tinha poucos amigos próximos porque sempre fui mais retraída, na internet é que eu conseguia me expressar, e pra sair a noite e ter coragem de lidar com as pessoas eu bebia MUITO, então tava sempre bebada, meio fora de controle, instável. Terrível. Então eu tinha muitos “amigos de balada”, que eu só encontrava em festas e quase nenhum amigo realmente próximo.  

MA: O que você diria para quem participou (ou participa…) desses ataques?

N: Não sei muito o que dizer pra eles. Que lembrem que as pessoas tem sentimentos, que a palavra tem poder, Que o que você posta pode simplesmente acabar com a vida de alguém. Mas não sinto que isso adiante. A opinião já está formada, não vai mudar. Tem todo tipo de gente no mundo e, infelizmente, tem muita gente ruim.

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Se você, ou alguém que você conhece, está tendo pensamentos suicidas, busque ajuda!

Centro de Valorização da vida: https://www.cvv.org.br 

Sessão encontre ajuda: https://www.setembroamarelo.com


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